O Diabo é um Homem Bom


O terreno de jogo estendia-se as searas indomaveis de centeio e trigo, atravessadas por labirintos e tuneis vegetais, onde jogavamos as escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um casaquinho de la, azul-palido, azul-bebe, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro nado-morto da minha longa vida de mortos. O corpo morria asfixiado num saco de plastico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi tambem o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisivel. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mae crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manha desse dia. Como era seu habito, as maos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela nao sabia que eu sabia do seu disfarce.



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FICHA TÉCNICA

Título Original: O Diabo é um Homem Bom

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Ano de Edição: 2012

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Avaliação interna (1 a 5): 3

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O terreno de jogo estendia-se às searas indomáveis de centeio e trigo, atravessadas por labirintos e túneis vegetais, onde jogávamos às escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um casaquinho de lã, azul-pálido, azul-bébe, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro nado-morto da minha longa vida de mortos.

O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia. Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.

 

Ano de Edição
2010-2019
Gênero
Ficção
País do Autor
Brasil
Língua
Português